sexta-feira, 26 de junho de 2009

Fajuto

Encaro o que tanto me sufoca,

Sinto-me o rio que corre por vias

Mas, diante da aridez por sua volta,

Dá as costas, vendo-se secar, passar as vidas...

Ao mesmo tempo sinto-me o indivíduo

Em meio as águas que ele próprio provoca

Perdendo tudo pelo fluxo, como um assobio

Desafinado, que ali tem seu sentido, que sempre precisa da nota...

Sinto-me no sufocar como de um agressor

Mãos à garganta, força e despedida

Sendo que as mãos inimigas ele próprio criou

E sufocado, muitas vezes sofria, e fugia, fugia...

Não se acha outra palavra para ele, além de dor...

Olhos que encaram, poderosos, famintos,

No entanto, cegos que mal sabem o que é cor

Mas vislumbram reflexivos, construindo labirintos e labirintos

Sinto-me um sono profundo, contínuo

Rodeado de pesadelo, apenas por esquecer o sonho todo

Encaro o que assusta, dormindo

Não vendo na realidade o que sufoca: vivendo morto.

“Fajuto”, por André Carvalho.

Inconformismo

As coisas ao meu redor me fazem ser tudo

E eu mesmo cada vez mais nada

Procuro o que nunca achei, o que tenho eu oculto

Sou um rato roendo a minha alma

Sou um monstro que não sabe o que é o feio nesse mundo

Eu olho no espelho e nada vejo, só ele fala

Acredito em tudo, desejo a mentira e da realidade fujo

O espelho e os sonhos refletem a mesma falha:

A vontade de ser tudo, de uma forma tão falsa, que será mero vazio quando preenchendo o túmulo, a vala...

“Inconformismo”, por André Carvalho.

sábado, 6 de junho de 2009

Os porcos ainda não sabem o que é bacon nem gripe. Nós comemos o bacon, ou não comemos bacon nem carne alguma – ou em alguns casos apenas “carne branca”, que, convenhamos, “não” é carne... – temos gripe, temos medo dela, ou a ignoramos, ou nos ignoramos de fato, e no fim os porcos de verdade, contaminados, é um muito desse “nós”.

            Não se pode deixar ser contaminado por essa “gripe suína” que vem de todo lado, já há muito tempo e de todo espaço, que faz de todos um todo contaminado, que precisa parar, pensar e se rever, sem aceitar e se resolver apenas pelo que é falado, estudado e publicado, mas se aceitando naturalmente e sem ficar tão parado, atirando pérolas e sendo os próprios porcos num mesmo estúpido ato.

            Já se diz em pandemia, a TV divulga, comercializa, ganha audiência etc., e as pessoas já veem o fim do mundo, os olhos todos, tapados, só olham ao futuro; são olhos criadores, cegos inventando um mundo, mas de um mau gosto tão terrível, que criam um futuro desastroso, em que já projetam sua morte e a de todos. A verdade que isso é reflexo da própria condição idiota que a massa pop se encontra: é um verdadeiro chiqueiro de gente! Um por cima do outro ou passando por cima do outro, sem espaço, se debatendo, se agredindo, só criando deficiência, achando na lama e na sujeira sua satisfação plena, e tendo como reforço e motivação: a lavagem, graciosamente cedida pelos governantes...Viva a essa lavagem de que todos nós sobrevivemos!

            Agora, a atenção e preocupação que atribuía o “fim do mundo” à crise econômica dá um tempinho, volta-se à crise, mais pessoal, da saúde...Pobres porquinhos, depois de quebrados como cofrinhos, que já estavam meio vazios – sem moedas, mas ainda pagando dízimos – agora têm que levar mais essa...

            O assunto da gripe, então, vira de tudo: motivo de alerta, motivo de piada, motivo de fobia, motivo de falência, motivo de lucro, motivo de parada, motivo de rumo e nisso só vai, por si só, contaminando a mente da massa já contaminada – e até mesmo falecida, há tempos em alguns casos, respirando como podem no túmulo – fazendo-os atribuir a esse tema todos os problemas de suas vidas, que jamais deveriam ficar de lado, esquecidos ou meramente negados...

            Todo mundo fica gripado, mas ninguém lembra mais das porcarias que estão ao lado, e que continuam a matar e a matar – quando já não se está enterrado – e a que, geralmente, o porco em si não possui culpa alguma... coitado.

            De fato, é necessário que alguém cuide do porco, de sua doença, o povo e o porco tem os seus deveres, que devem valer mais que seus direitos (que aí estão muito do mal feito...), não podem esquecer ou fechar os olhos para o fato de que ali estão todos aglomerados, em má situação, e negando a verdade, continuando a aceitar lavagem, brigando por lavagem, em vez de se livrarem, e de se lavarem de vez...


“Inconformismo”, por A.Carvalho.

Estranhamente vem-me o gosto puro e amargo da morte.

Linguarando em degustadas densas na boca

Fluxo de sangue que corre constante, do profundo ele sobe

Avermelhando o que eu vejo, o que eu gosto e o que odeio

Força que estremece, que explode, desespera e falece

Monumento simétrico sírio, que racha, quebra, se perde

Estranheza pela vida percebida, enquanto a elimina

Tudo porque nos tornamos apenas um,

Mas como um degradado...vazio e dominado

Que migra para o fim, pensando em só ser salvo

E isso ainda é o normal, só estranho para mim, e quem sabe para nós,

Inconformados...

 

“Inconformismo”, por A. Carvalho.

O fajuto é um reflexo.

Irmão gêmeo que não nasceu, mas é resultado, como a sombra, projetado...

Vício, droga...direções, retas, tortas...

Verdade, primogênita, justa, sólida e tão diferente quando a incorpora...

Hipnótica, utópica, esquerdista, anti, contra, forte, apóia-hipócrita, fiél, viva ou morta.

Ninguém quer nada e ninguém é tudo em originalidade embalada

Vozes que passam de boca a boca,

Ideias que habitam cérebros e cérebros, tidas como absolutas,

Geniais, e são estúpidas ou apenas verdades cruas...

Triviais ou até fajutas, que sempre aí estiveram,

Que burocraciam, sistematizam coisas puras...

E que tudo está incluído, no verdadeirismo ou no que é falso, vice-versa,

Procurando respostas, formulando perguntas...

Banalizada, visões do futuro.

Mas que futuro que nada!

Entre problemáticas, sempre haverá um, o fajuto.

Ele, ela, eles, elas que ali continuam

Pensando, pensando, pensando, mas se reprovando,

Olhando para dentro, no que há de mais puro,

Que não necessita de aplausos, vaias ou uivos...

Que não se resume ao passado, conquistado ou obscuro,

Nem se abstém a futuros, merecidos ou indefinidos (e ao absoluto)

E mesmo o presente, em horas que passam

Completando uma vida, que de verdadeira, em fajuto,

Só valeu, se valeu, em minutos...hahahaha!

 

“Fajuto”, por A.Carvalho

Tudo que ultimamente enxergo

Não passa de nada, e só passa...

Sou jovem e já me sinto e me vejo velho,

Morto. Mas nem tudo que eu reparo, que me valha...

Percebo e logo me desespero...

Esses quadros recentes que não mostram nada...

Reflexo, quando bem feito, do que é certo?

Será que ninguém vê? Ninguém não fala?

Perguntar, debater, para quê? Quem é o maestro?

Onde ele está a fazer uma orquestra funcionar?

Ou onde está o coração, confundido e cego,

Que precisa confiar em sua audição para achar

Novamente um sentido.

Pois acredite, viver ainda é tudo, todos,

E, ouça, precisando voltar, precisando vencer,

Acreditar e fortalecer...e verá que ainda é belo.

 

“Inconformismo”, por A.Carvalho.